A sorte estava solta na capital

Sexta à noite e a cidade de Lisboa, muito quente, cheia de vida. Uma vida que também fervilhava numa das ruas mais escondidas da Avenida da Liberdade. A vida – ou talvez a melhor que já existiu – fervia no Capitólio – o espaço privilegiado onde acontecia a festa de Tiago Nacarato e seus seis músicos. MARO foi convidada e gravou “Saudade, Saudade”, a música com que representou Portugal na final da Eurovisão, há uma semana. Mimi Froes ficou feliz com a abertura.

Foi então uma sensação de vida festeira que veio à tona esta noite. Entre ritmos quentes e apertados, momentos de dança ondulante ou proezas em solos de guitarra ou saxofone, a vida também se soltava nas confidências do músico em português com dois sotaques e nos sorrisos largos de quem estava no palco e dentro da platéia. E havia vida, ainda que mais silenciosa, na quietude introspectiva das baladas acústicas.

A cantora Mimi Froes, que tem uma sensibilidade vocal e expressiva que lembra as grandes damas do folk, fez a primeira parte, tocando um punhado de músicas que o público cantou timidamente. Acompanhada ao piano pelo seu cúmplice Manuel Oliveira, a cantora e compositora emprestou a sua voz a várias das suas canções, que só pecaram porque eram poucas. Como ele nos contou, ele estava lá para aquecer o menino que seria o próximo. “Viemos para aquecer o trono”, disse ele com graça ao público, que sem esforço e de uma só vez conquistou o momento em que começou o primeiro tema, violão nos braços. Ele cantou “E a Cantar”, “Dreaming”, “Midnight Declarations”, “Autumn”, “Crowd” e “It Doesn’t Hurt to Be Well”.

Por volta das dez e dez da noite, Tiago Nacarato subiu ao palco para se apresentar ao vivo e – como disse – em um mundo que prefere a cor ao seu no dia 13. Recém-chegado do Brasil, onde apresentou suas origens para um novo Ciclo foi revivido em palco, o músico portuense mostrou as suas novas canções num clima de festa atmosférica para o futuro. Não sabemos exatamente o que será, mas parece bom.

See also  onde você pode assistir ao vivo a partida de encerramento da 10ª rodada da Série C

“Andorinha”, a música que abre o novo álbum, abriu também o concerto com a solenidade da gravação a cappella entrelaçada com memórias do património do Cante Alentejano. Seguiram-se as igualmente frescas “Apprentiz” e “Preparar o Carnaval”, ambas do último álbum, com Tiago Nacarato no centro do palco, rodeado por um punhado de músicos e instrumentos: dois conjuntos de percussão, duas guitarras, um baixo e as teclas.

“Faça algum barulho”, ele chamou para a platéia antes de tomar o tempo – com pompa, circunstância e emoção – para apresentar seus companheiros de palco animados. Ouviram-se posteriormente “Grão” e os recentes “Paz Interior” e “Cantando Eu Sou”. O alinhamento, embora fosse “Peito Aberto”, não foi fechado na novidade. Até as músicas mais populares saltaram para o palco.

“Você está ótimo hoje”, exclamou Tiago Nacarato uma vez. “Vamos nos acalmar um pouco. Meu coração não aguenta tantas emoções. Obrigado por ter vindo a esta festa. Foram tempos difíceis. É hora de desabafar. É hora de tirar as lições desses tempos, viver com mais empatia, o mundo é lindo”, continuou o músico, profundamente tomado pela alegria de estar no palco e com vista para uma casa cheia. “Precisamos que as respostas encontrem dentro de nós mesmos”. ele acrescentou, como se pedisse para compartilhar a fórmula feliz com os presentes. É só que o novo álbum – sucessor de “Lugar Comum” de 2019 – chegou na suave centelha da primavera para sem reservas, para ser compartilhado em liberdade e sem lacunas, com o coração aberto, veio no momento certo para ser celebrado como ponto de encontro de ritmos e culturas, mas também como exercício de reflexão.


“Onde Anda Você”, abençoado na voz de Vinicius de Moraes e Toquinho, seguiu a plateia – desta vez com Tiago Nacarato sozinho no palco, mas apoiado pelo maior coral da sala. “Eu amo minha banda, mas é bom tocar sozinho também”, confidenciou. “O Mundo É um Moinho” foi dedicado ao Rio de Janeiro e “Areia Fina” foi tocada com a banda em torno da festa. A carta de amor “Matriz” – dedicada por um apaixonado Nacarato à namorada Sandra – foi precedida por “Filosofia”, que mereceu um revival de guitarras e um solo de saxofone bem trabalhado.

See also  Gilberto Gil diz que Doces pode marcar Bárbaros: 'Espero que aconteça'

“O clímax do show foi alcançado”, alertou o músico. Tiago Nacarato bastou dizer isto para ouvir o refrão de “Saudade, Saudade”, a música que MARO levou a Turim. Nesse momento, o cantor, escondido em algum lugar atrás das cortinas, entrou no palco. MARO entrou – doce, alegre e agradecido – e foi surpreendentemente recebido com uma chuva de aplausos.

Os dois músicos, acompanhados ao piano, deram a voz a uma versão dos dois amigos brasileiros, 5 a Seco. “Pensando Bem” soou em absoluto silêncio e foi a ponte para as emoções de “Peito Aberto”, também cantada pelos dois. Claro que o MARO não foi embora sem cantar “Saudade, Saudade” – uma das músicas mais esperadas, quer ainda pulsasse no coração da nação ou não. O Capitólio tornou-se o céu estrelado que vimos em Turim e MARO voltou a abraçar-nos com a serenidade e o cuidado que transmite na sua voz.

“On My Own” – que o músico apresentou com um tutorial anterior para que ninguém confundisse a letra – terminou com uma revolta definitiva dos instrumentos cujos donos voltaram ao palco e se esticaram para homenagear o som infalível do rock’n ‘ Roll, que foi mudado para um bis.

A balada ‘Tempo’ – em que o piano dá lugar à voz de Nacarato – foi a primeira das três guardadas para a despedida. “Só Me Apetece Dançar” e uma repetição de “Grao” encerraram a festa, que valeu a pena estender a noite inteira – se isso fosse possível. “Estou mesmo muito feliz”, exclamou Tiago Nacarato antes dos agradecimentos finais, enquanto todos os músicos no palco se curvavam como de costume.

Leave a Comment

x