Aprendi a gostar de Caetano depois que ele xingou meu pai – 14/05/2022 – Illustríssima

[RESUMO] O publicitário passou anos sem ouvir Caetano depois que o cantor xingou seu pai, o jornalista Geraldo Mayrink, chamando-o de burro em uma entrevista de 1978, episódio que virou meme. Décadas depois, ao compilar as letras do pai em um site, teve a ideia de produzir um podcast com a versão de Caetano sobre o caso, e acabou se dedicando à música do artista.

“Há quanto tempo você está ouvindo isso ao vivo?”, perguntou um amigo com quem dividimos uma mesa no Espaço das Américas em São Paulo durante o primeiro show da nova turnê de Caetano Veloso pela cidade. Pairando entre os acordes de “You Don’t Know Me”, uma música gravada no exílio em Londres em 1971, e minha inesperada afirmação de que eu tinha “cerca de 45 anos ou algo assim”, ela merece algumas observações preliminares neste show de outono. .

Cresci nas décadas de 1980 e 1990 cercado de discos e cassetes que chegavam de meu pai, escritor e jornalista Geraldo Mayrink (1942-2009), e de minha mãe, que era assessora de imprensa e relações públicas – hoje falamos de PR (relações ).

Enquanto Gil, Elis, Chico e Rita se revezavam no gramofone, pouco se ouvia de Caetano, tão popular quanto o resto da turma, pelo menos fora de casa. “Ele brigou com o pai em um programa de TV. Mude o registro”, meu tio avisou enquanto vestia um djavan para embalar o almoço para sábado.

Mesmo sem entender o contexto dessa luta, absorvi a mensagem e segui minha formação musical em busca de novas descobertas, como uma trilha sonora de novela internacional. Nunca tendo ouvido falar de um confronto entre meu pai e membros do The Clash ou UB40, em casa Caetano se viu parado no gravador até entrar em modo soneca profundo.

Ele tentou algumas vezes ser acordado por amigos que insistiam em me convidar para os shows da cantora baiana e festas de música brasileira. “MPB é música pop britânica para mim”, disse ele, com a empatia alegre de quem não entende de música ou de pessoas – inglês era nota 7.

Após superar a fase niilista, busquei expandir meu repertório sonoro à medida que o cerco tropical se intensificava. Em 2010 eu estava em Paris e fui convidado por alguns amigos brasileiros para um festival de artes e música em La Défense, distrito financeiro da cidade, uma espécie de Berrini com o vale do AINGANGABAú, só em euros. Na saída do metrô, cartazes apontavam o caminho para o evento e destacavam a principal atração do dia: Monsieur Caetano Veloso.

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Guardei as brigas de TV do passado em uma pochete e parti para curtir essa experiência franco-brasileira sem prejuízo do barulho. Afinal, eu estava de férias, havia uma Copa do Mundo em andamento quando o mundo está 30 dias mais eufórico – Amaury Jr. diria “manchado” – principalmente se sua seleção ainda não foi eliminada. Além disso, faltaria apenas alguns meses para o período eleitoral no Brasil, o que me estabilizou democraticamente. “Haja Croissant!”, Galvão lhe dizia.

Caminhamos pelo festival sem muita hesitação, e fora do palco, também, a música cobria nossas conversas como uma trilha sonora agradável no final da tarde. “E Kaká, né, isso funciona mesmo?”, alguém interveio durante um intervalo da apresentação. Faltava algo mais do meia-atacante neste troféu (não só ele), ao contrário do som, que finalmente começava a empolgar e me lembrava que eu estava em um festival de música e que era hora de ver alguém tocar.

Caminhando em direção ao palco, ainda sem identificar a banda, vi jovens barulhentos tocando um som que gostei muito. Bateria seca e potente, linhas de baixo diferenciadas, riffs tropicais e aquela atmosfera festiva que só um show ao vivo pode oferecer. “Très bon!”, gaguejei para praticar meu francês, imaginando que estava diante da nova sensação do indie rock parisiense. erro lido. Perdoe meu francês!

O guru dessas crianças era Caetano Veloso, de todas as pessoas, o artista que eu não gostava e que, para minha surpresa, acabara de entrar em cena. Apresentou-se com a banda Cê, fundada por Pedro Sá, Ricardo Callado e Roberto Dias Gomes, jovens músicos que trouxeram novas referências musicais, introduzindo o pós-rock com samba, distorções e outras experiências no repertório do compositor de “O Leãozinho”, que gravou três álbuns com ele.

Essa mistura de sons me chamou a atenção e me senti como os ‘subversores’ que assistiram aos jogos da seleção de 1970 e acharam os gols bonitos, mas politicamente desconfortáveis. Para disfarçar, fiquei de lado para o palco, mas para os alto-falantes, o que criou movimentos involuntários e eventualmente sensuais em meus pés, ombros, cintura e cabeça.

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E apenas o resto do corpo estava sob controle. Tecnicamente não vi um show do Caetano, mas fiquei empolgado ao descobrir que ele poderia tocar guitarra ao lado de Odara.

De volta ao Brasil, iniciei um projeto pessoal que me colocaria novamente diante dos compositores. Eu havia iniciado um projeto de pesquisa para um site que queria criar, com uma ótima redação escrita pelo meu pai em 50 anos de carreira, uma homenagem pessoal e uma homenagem ao jornalismo. Ironicamente, durante esse processo, eles começaram a me marcar em postagens de mídia social para conteúdo com o título não tão digestivo “Caetano Detona Geraldo”. Mesmo antes de vê-lo, eu já estava prevendo o enredo.

Era o fatídico vídeo de uma edição de 1978 do programa Vox Populi, da TV Cultura, em que Caetano respondia a perguntas previamente gravadas em estúdio. Um deles era do meu pai, que questionava provocativamente quem o prendeu em 1968, fosse a viatura ou a patrulha ideológica. Ele também perguntou se a imprensa estava apenas elogiando a difícil relação do artista com os críticos.

O início da resposta de Caetano pode ser encontrado em vídeos, gifs, figurinhas de WhatsApp, grafites e todo tipo de memes: “Como você é burro, cara! Que doido!”.

O resto do discurso não cabia na parede e era ainda mais agressivo, refletindo a indignação com uma resenha de Much naquele mesmo ano, em que meu pai dizia que era um álbum de poesia ruim de outros e do próprio Caetano e que, embora “pareçam durar mais uma eternidade”, conseguiram surpreender em “Eu te Amo” e sobretudo em “Sampa”, “a música mais bonita do ano”.

“Quero tirar do serviço pessoas incompetentes e desonestas como você. Vou trabalhar para que pessoas como você percam seus empregos”, concluiu o entrevistado irritado.

Meu pai havia se tornado o “burro do Caetano” e eu finalmente entendi por que os presentes de Natal estavam acabando em casa desde 1978, mesmo sem ele ter sido demitido. “Atitude preventiva” tiraria minha mãe do rumo quando perguntado. Continuei pesquisando e juntando peças para colocar o site online, mas o episódio memético ainda me incomodava.

Foi então que resolvi buscar ajuda de especialistas, a Paula Scarpin e Flora Thomson-DeVeaux (ninguém pronuncia esse nome tão majestosamente quanto o próprio Caetano) da Rádio Novelo e dos grandes nomes “Praia dos Ossos”, “Retrato Narrado” e “Crime e Punição”.

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Expliquei que estou abrindo um site com alguns relatos históricos e que um deles que gerou o episódio com Caetano pode gerar um podcast – e provavelmente novos memes. Eles concordaram e logo começaram a pesquisa inicial e entrevistas para o projeto. Nosso objetivo final era encontrar o homem e ouvir seu lado do caso mais de quatro décadas depois, um ano após nossa primeira troca de e-mails.

Este texto não pretende dar mais referências ao encontro (o podcast será transmitido no segundo semestre), mas sem ele eu certamente não estaria lá para meu primeiro show no Espaço das Américas (“segundo”, os franceses digamos, sempre querendo polemizar), agora oficial e aberto.

De volta à mesa do Espaço das Américas e com o intervalo musical devidamente acertado, chegou a hora de vivenciar esse momento tão esperado. Caetano Veloso subiu ao palco flutuando como um ícone, pronto para uma noite de glória. Recebido com admiração num ambiente de luzes e elementos minimalistas, o cantor iniciou a sua apresentação com a preferência por temas de “Meu Coco”, álbum lançado no ano passado, como “Anjos Tronchos” e “Não Vou Deixar”, onde destilou e demonstrou alcance de corpo inteiro de alta fidelidade.

Assim como a banda Cê há 15 anos, a formação com jovens músicos como Lucas Nunes, multi-instrumentista e produtor do disco, comprova que Caetano aos 79 anos nunca deixou de ousar e experimentar.

Para diversão dos paulistanos, ele usou o “R” retroflexo em “A Outra Banda da Terra”, mas sem muita engenhosidade para um sotaque “mais lento”. Com “Reconvexo”, “Sampa”, “Baby” e outros sucessos ele correu para o abraço, sempre confiante, harmonioso e com um sorriso sutil no rosto.

Caetano, que foi várias vezes criticado por não se posicionar politicamente – e também por tomar partido – proferiu um “Fora, Bolsonaro!” sem ter que içar bandeiras. Ele foi aplaudido e aplaudido, a mensagem foi entregue.

Sozinho ao violão ou acompanhado por sua banda, ele conscientemente homenageia parceiros e formações que o acompanharam nos últimos 50 anos e são responsáveis ​​pelos imensos horizontes musicais que o tornaram um dos compositores mais celebrados do mundo. No final da noite, nem ele nem o público tinham o direito de ficar desapontados.

Acho que vou fazer um NFT desse meme. Que louco cara!

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