Carolina de Jesus acertou: Brasil deve ser governado por quem já passou fome – 23/06/2022

Era maio de 1958 quando Carolina Maria de Jesus escreveu em seu diário: “O Brasil deve ser governado por uma pessoa que já está com fome. Mulher negra da favela, catadora de ferro e papel, mãe solteira de três filhos, Carolina cozinhava macarrão garimpado no lixo e vasculhava entre os restos de uma geladeira pedaços de carne e ossos de boi para acalmá-la (tente). dor de seus filhos. “Tem mais?”, perguntava um deles depois de engolir uma tigela de sopa ou fubá. nunca tive.

As notas de Carolina foram coletadas no livro “Quarto de despejo” organizado pelo jornalista Audálio Dantas e publicado em 1960. Depois vieram outros que fizeram do colecionador da favela do Canindé, em São Paulo, um fenômeno editorial.

Caroline conhecia suas coisas. Ele sabia melhor quando escreveu, por exemplo, que em relação à desigualdade social e ao descaso com os mais pobres, “o mundo, em vez de evoluir, está voltando ao primitivismo”. Ou quando anotou em seu diário que “as dificuldades cortar afeição das pessoas pelos políticos”.

“Quando estou com fome quero matar Jânio, quero enforcar Adhemar e queimar Juscelino”, disse o escritor, também em 1958, referindo-se respectivamente ao governador de São Paulo, ao prefeito de São Paulo e ao presidente da república . E a frase “comida ele deve ser acessível a todos”?

Se você está com fome, você está com pressa

Até esta quinta-feira (23), o Encontro Nacional Contra a Fome, organizado pela ONG Ação da Cidadania com apoio de instituições como Instituto Fome Zero, Oxfam Brasil e OAB, acontece no Rio de Janeiro com transmissão ao vivo pela internet .

O evento comemora os 30 anos do movimento ética na política que, liderado pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, encerrou na campanha Ação Cidadã Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida, em 1993. “Quem tem fome tem pressa”, repetiu o sociólogo, ajudando a colocar a questão da segurança alimentar no centro da agenda nacional e ganhando ampla repercussão na sociedade civil e na mídia.

Ao mesmo tempo, o encontro também marca os 20 anos do Programa Fome Zero, anunciado logo após o segundo turno em 2002 e colocado em prática nos primeiros dias de 2003. Separadas no tempo por uma década, ambas as iniciativas – Ação da Cidadania e o Programa Fome Zero – têm origens muito semelhantes: as propostas de políticas desenvolvidas na década de 1990 pela equipe de funcionários do Instituto Cidadania, conforme relatei em coluna anterior, de 2021.

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Hoje, o tema da fome deixou de ser oportuno, constrangedor, necessário, tornando-se constrangedor. Nada mais convincente, nada mais urgente.

15,5% da população passa fome

Os números são vergonhosos. Os dados mais contundentes têm sido estudados com sensatez em portais de notícias, jornais e telejornais desde a publicação dos resultados da II Pesquisa Nacional de Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia de Covid-19 no Brasil no último dia 8.

O relatório elaborado pela Rede Brasileira de Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN) mostra que 33,1 milhões de pessoas no Brasil passam fome, o que representa 15,5% da população. Considerando baixos níveis de insegurança alimentar (qualidade alimentar prejudicada e incerteza de obter alimentos suficientes no futuro próximo) e níveis moderados (alimentação insuficiente, incapacidade de comer três refeições por dia), o flagelo da restrição alimentar leva uma multidão de 125,2 milhões de pessoas brasileiro.

Pela primeira vez em 20 anos, desde a primeira pesquisa nacional de amostras domiciliares divulgada em 2004, mais da metade do país diz viver com o problema.

Em consonância com o senso comum, a pesquisa constatou que a maioria dos atos de violência são mais graves nas regiões Norte (54,6% da população com insegurança alimentar grave ou moderada) e Nordeste (43,6%). Em termos absolutos, porém, é importante destacar que 11 milhões de famintos (grave insegurança alimentar) vivem na região Sudeste: uma em cada três pessoas que passam fome no Brasil vive nas regiões mais nobres, mais ricas, mais modernas, mais estruturadas e parte mais próspera do Brasil .fora do país .

Segundo os pesquisadores, que visitaram 12.745 domicílios nos 26 estados e no Distrito Federal entre novembro de 2021 e abril de 2022, 15% da população brasileira (a amostra é representativa) não tomava café da manhã, 10% não almoçava e 20% não jantou. Um em cada três não comia três refeições por dia.

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A situação é mais difícil nas áreas rurais. A pior insegurança alimentar (25,6%) foi observada entre os agricultores familiares e pequenos produtores rurais que tiveram sua produção reduzida, principalmente pela dificuldade de comercialização de seus produtos.

Muito além da pandemia

O que explica o aumento de 73% no número de pessoas famintas em pouco mais de um ano, de 19,1 milhões no final de 2020 para 33,1 milhões em abril de 2022? A pandemia? O “fique em casa e veremos a economia depois?” Não. Segundo a equipe responsável pela análise dos dados da pesquisa, a progressão da fome acontecia em progressão geométrica antes mesmo da pandemia, e em grande medida aconteceria mesmo sem a Covid.

“Existe um processo contínuo de empobrecimento e vulnerabilidade social de grande parte da população brasileira”, afirma Sandra Maria Chaves dos Santos, vice-coordenadora da pesquisa e uma de suas relatoras. “Esse cenário está se agravando na medida em que esses 33 milhões de brasileiros que vivem com fome todos os dias não podem mais contar com políticas governamentais eficazes.”

Quando Sandra fala sobre políticas governamentais, ela não está necessariamente se referindo a programas de transferência de renda como o Bolsa Família ou seu sobrinho pobre, Auxílio Brasil. Esses nem são os mais importantes. Os grandes aliados no combate à fome e outras formas de insegurança alimentar no passado recente foram o aumento do emprego formal e a política de valorização do salário mínimo.

Ao mesmo tempo, houve a decisão política de investir parcela significativa do orçamento federal em programas e processos que fortaleçam a capacidade de produção de alimentos, geração de renda e proteção social. Instrumentos como o Bolsa Família e o Benefício de Proteção Continuada foram muito importantes, mas nada mais do que o fortalecimento da agricultura familiar por meio de diversas políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), Licht para todos ou a construção de cisternas.

A economista Tereza Campello, especialista em saúde pública e ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, participou de um dos painéis do Encontro Nacional Contra a Fome e citou o caso das cisternas. “Entre 2003 e 2014, foram construídos 1 milhão de cisternas, algo absolutamente essencial para levar água à população do semiárido que não tinha segurança hídrica”, diz. “Esse programa custou muito dinheiro, mas foi uma decisão política dos governos investir nele.

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Ainda segundo Tereza, foi somente graças à pressão da sociedade civil dos conselhos estaduais de segurança alimentar, os conseas, que essa percepção pôde ser trabalhada e priorizada as cisternas. “Hoje não há cisterna nem consea. Você vê a diferença?”, diz ele.

Aliás, o levantamento divulgado no início deste mês pela Rede PENSSAN mostrou que a insegurança hídrica continua sendo um grande flagelo da população mais vulnerável. Aliás, as inseguranças andam de mãos dadas no Brasil: a família que não tem dinheiro para comprar mantimentos também não pode comprar gás para cozinhar; aqueles sem acesso à água potável não podem comer adequadamente; Se você não tem eletricidade, não pode ter uma geladeira para guardar suas compras.

discriminação

A desmontagem é visível. As famílias que vivem da agricultura, por exemplo, sofrem por não conseguirem vender seus produtos. Muitos deles não podem nem crescer e produzir sem a segurança dos contratos previamente estabelecidos no PAA, um programa de compras do governo instituído em 2003 para incentivar a agricultura familiar, principalmente a agroecológica.

Ao invés de comprar biscoitos e macarrão embalados de grandes indústrias para abastecer a merenda escolar, por exemplo, as cooperativas locais foram favorecidas por pequenos produtores, alguns assentados, que comprometiam parte da compra de alimentos para estocar, doar para beneficiários do Bolsa Família e outros necessitados comunidades e abastecer equipamentos públicos como escolas, hospitais e rede de assistência social.

Em 2016, mais de 400.000 agricultores foram beneficiados pelo programa e mais de 4 milhões de toneladas de alimentos foram adquiridos. Concluído. Em 2021, Bolsonaro mudou o nome do PAA para Alimenta Brasil e depois impôs um corte drástico no orçamento. Conforme noticiado pelo UOL, o PAA recebeu R$ 586 milhões do orçamento federal em 2012. Em 2021 foi de R$ 58,9 milhões. Apenas R$ 89 mil até maio deste ano.

O Brasil, como dizia Carolina Maria de Jesus, deve ser liderado por uma pessoa que já passou fome.

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