Elza Soares entrega show no Municipal de SP como ato final de sua carreira

“Vou me despejar neste palco de tal forma que ninguém me arranque do grão da madeira”, ouviu do cantor Pedro Loureiro, empresário de Elza Soares por sete anos. A frase sobre a arquitetura do Theatro Municipal de São Paulo foi dita em 2020 quando planejavam gravar um espetáculo do artista conhecido como Voz do Milênio.

A essa altura, uma foto no melhor quarto – que ela disse a seus entes queridos nunca é bem-vinda – ainda não estava à vista. “Ela disse: ‘Elza vai ficar enraizada em todo este palco'”, conta Loureiro, antes de soltar uma frase muitas vezes repetida por quem está ao redor da cantora. “Esta mulher já sabia.”

Elza morreu em 20 de janeiro, aos 91 anos., miserável dois dias depois de desertar para a comunidade onde gravou um álbum que será lançado nesta sexta-feira e um filme ao vivo que revisita uma carreira tão importante para a cultura brasileira. Foi o ato final de uma jornada inspiradora repleta de percalços que terminou com uma redenção que parece tão simples de ter sido orquestrada pelo artista.

O processo que culminou na inclusão no Municipal remonta a 2015, quando Elza mais uma vez saiu do ostracismo e aclamação com o disco A Mulher do Fim do Mundo, um disco estrondoso de músicas inéditas. A partir daí, Loureiro assumiu o cargo de empresário e desenvolveu uma “relação pai-filho” com o cantor.

Depois de anos de agenda apertada e lançamentos pouco frequentes, Elza queria fazer o máximo de shows que seu corpo aguentasse e passou seus últimos anos visitando ansiosamente o estúdio de gravação Deck no Rio de Janeiro. “No final de 2021 ela estava incrível. Ela costumava entrar às 16h e sair às 20h, mas aqui em novembro ela era um monstro. Havia sessões que duravam até 1h. Ela ficou muito feliz porque sabia o que queria cantar.” , diz Rafael Ramos, produtor de “Planeta Fome” e “Ao Vivo no Municipal”.

Ele lembra que havia períodos em que ela parecia mais cansada, ela só entrava no estúdio e cantava, mas nos últimos meses ela tem tido um espírito inabalável. Elza não fez muitos takes, que ouviu e escolheu com cuidado, mas estudou cada música antes de entrar no estúdio. “Ela gostava de chegar preparada, mas sempre gravou como se estivesse se divertindo.”

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Elza não tinha mais a mesma vontade de cantar músicas que estiveram em seu repertório ao longo de sua carreira, como “Se Acaso Você Chegasse”, de 1959, mas teve algumas favoritas, como “Comportamento Geral”, de Gonzaguinha. Ela pediu espaços instrumentais nas músicas para “tocar” com sua voz, quis gravar “Meu Guri” com voz e um piano tocado por um negro, aproveitou para trabalhar em “Dura na Queda” para relembrar uma música que Chico Buarque compôs para ela há 20 anos.

Ela disse que cantar é seu maior remédio, mas mesmo nos momentos mais emocionantes, ela não gostava de ser vista como vulnerável. “Você sentiu a nostalgia dela, mas ela não se emocionou. Era muito forte. Quando ela cantava ou falava sobre assuntos delicados, você sentia a dor, mas ela não chorava na sua frente.”

O repertório do álbum e do filme ao vivo reúne momentos de toda a sua carreira, escolhidos a dedo pela cantora que está ligada às músicas por meio de memórias – o primeiro show em que cantou determinada música, o compositor, qualquer acontecimento de sua vida. . Elza ainda não tinha uma gravação ao vivo abrangendo toda a sua carreira e fazer esse trabalho se tornou seu último grande desejo e obsessão.

Nos últimos anos, ela quis estar no palco sempre que possível, desafiando os limites do próprio corpo, já atormentado por antigos problemas na coluna e na clavícula, e as dores nos pés que restringiam seus movimentos.

“Quando foi Conceição [seu sobrenome], vimos uma senhora pequena e frágil. Mas uma vez que ela começou a fazer maquiagem, ela se transformou em um monstro. Parecia ter dois metros de altura. Sua voz, seu olhar, tudo nela mudou muito. Mas tínhamos que entender que era um corpo de 91 anos”, conta Vanessa Soares, neta da cantora, que também administrou sua carreira e viveu com ela os cinco meses que antecederam sua morte.

Foram Vanessa e Loureiro que desaceleraram Elza, que passou dois dias gravando em sessões intensas no Municipal, o que ao final das gravações não a impediu de jogar seu tradicional buraco, o jogo de cartas após o show. “Ela não gostava de tomar café da manhã no hotel, mas em suas viagens recentes ela queria descer e bater um papo.

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“Ao Vivo no Municipal”, financiado pela Lei Rouanet, deveria ter sido incluído há dois anos, mas foi adiado pela pandemia. Durante a gravação, Loureiro conta que se sentiu uma criança no intervalo.

“Ela estava dançando com os ombros, ela estava feliz, rindo, despreocupada. Ela estava sempre preocupada com o resultado final, o penteado, a roupa, os tons. Mas desta vez ela estava livre, confiante. Achamos que seria uma tendência nos anos seguintes eu não sabia que ela sabia que estava fazendo seu último trabalho.

Nos últimos anos, Elza desenvolveu uma relação especial com fãs como Paulo Moura, dono de seu fã-clube oficial, com quem mantinha uma relação íntima, passando semanas ou meses na casa da cantora em Copacabana. Ela insistiu que ele ficasse lá quando fosse ao Rio.

Moura lembra que conversaram por horas e, como sociólogo, muitas vezes o assunto acabou na política. “Lembro que ela estava deitada na cama muito indignada e perguntou: ‘Onde está o moço, meu Deus?’, com aquelas expressões que só ela tinha. ‘Como não sair na rua? Como você pode permitir? ‘, isso se referia à corrente do governo. Ela se sentiu letárgica.”

Ele diz que Elza não gostava de ouvir suas próprias músicas, mas era fanática pelo cantor mexicano Luis Miguel – e brincou dizendo que tinha uma queda por ele. Ela relacionou a música “Drão” de Gilberto Gil ao filho Garrinchinha, que morreu em um acidente de carro em 1986. Pais.

Moura foi um dos poucos convidados – a maioria, a pedido de Elza, negros e pessoas que nunca haviam pisado na comunidade – para assistir a uma das três partes do filme. Ele conseguiu encontrar sua namorada novamente depois de dois anos apenas falando com ela ao telefone. “Comecei a chorar e a tremer. Ela é a pessoa que mudou minha vida, passei meus últimos anos procurando essa mulher. E era o DVD que ela tanto sonhava. Aconteceu muita coisa, um ciclo se fechou. Ela foi até homenageado no desfile da Mocidade Independente de Padre Miguel. É como dizer: ‘consegui, vou embora’.”

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Elza tinha um senso de humor especial e costumava fazer piadas com todos ao seu redor. Na véspera de sua morte, ela vestia a camisa do Flamengo, da qual era torcedora, e sua treinadora Mônica, do Botafogo, brincou que borrifaria o uniforme com alvejante. “Ela riu, olhou para mim e disse: ‘Vanessa, diga a ela quem está pagando ela'”, diz a neta.

Ele também se abriu sobre seu relacionamento intenso e complicado com Garrincha para o documentário Elza & Mané, do Globoplay, no ano passado. Era um assunto sobre o qual ela não falava com ninguém. “Eu era muito jovem, mas minha avó não nos deixava ver nada.

Mas, diz a neta, Elza fez as pazes com o passado. “Por mais chapada que estivesse, ela estava calma. Ela disse ‘deixa pra lá’ e acabou. Preferi apagar as lembranças para não sofrer.”

Elza tem ficado com Vanessa nos últimos meses. Gostou da participação de Linn da Quebrada no Big Brother Brasil, conheceu parentes, contou piadas e assistiu aos jogos do Flamengo. Ela pedia seu prato favorito, uma receita de gema de ovo que ela ia para a cozinha para ensinar a quem estivesse encarregado do fogão. Se sua partida foi orquestrada, como acreditam os que a cercam, ela também fez questão de escolher o dia da partida, o dia da morte de Garrincha, 39 anos depois.

Elza morreu em casa, na cama, depois de praticamente dizer ao marido da neta que estava deixando este mundo. Mas dois dias antes ele havia deixado claro que iria cantar até o fim.

“Faltam oito minutos para terminar a gravação”, diz Loureiro. “Cheguei atrasado, não consegui gravar ‘Mulher do Fim do Mundo’. Cheguei na Elza e disse: ‘Meu amor, você vai cantar até o fim?’ Ela disse: “Claro.” Tanto em vídeo quanto em áudio, a última música que Elza Soares cantou na vida valeu uma vez. Uma gravação perfeita, na qual ela improvisou no final. Ela diz: ‘Deixe-me cantar até o fim’ e silêncio. Respire fundo e diga ‘até o fim’.” (Lucas Breda)

Elza ao vivo no Municipal

Quem: Elza Soares

Produtor: Rafael Ramos

Etiqueta: Convés

Quando: nesta sexta-feira (13)

Onde: Nas plataformas de streaming

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