Lendo a carta semanalmente (e sendo lida) – 25/05/2022

Ser colunista me pegou no meio do caminho de surpresa. Sempre trabalhei com as palavras, escrevo poesia desde os 14 anos, agora sou compositor e roteirista, mas na minha carreira de artista nunca imaginei ser colunista antes que a oportunidade se apresentasse. Meus poemas – por muito tempo guardados apenas para mim e alguns confidentes – eram meu refúgio. Meus roteiros e músicas se tornaram meu outro meio de comunicação através da arte ao lado do meu corpo de atriz e cantora. Agora, há um ano, vivo com o desafio de escrever semanalmente, me comunicar com milhares de pessoas aqui, e explorar dentro e fora de mim tudo o que me parece importante compartilhar.

Ser colunista semanal é muito diferente de compor um álbum de música ou um roteiro para um filme de autor, em que o tempo dessa elaboração corresponde ao ritmo da produção, mas muito – se não mais – ao ritmo da elaboração do experiência, des processo criativo em seus detalhes, construindo pouco a pouco de acordo com as experiências de vida e aprendendo com os estudos para eles. No trabalho de escrever de semana em semana há um tempo fixo que se limita a ser cumprido e isso cria em mim uma pergunta profunda e atenta a cada sete dias: o que está passando por mim hoje, o que é possível e importante, para ser comunicado ? ser compartilhado publicamente?

Nunca pretendi que minha coluna construísse certezas. Em um esforço para refletir em minha escrita o que li sobre o mundo – como o teatro me ensinou – mergulhei na autoproposta ao longo deste último ano de não apenas revelar minhas opiniões sobre os fatos apresentados por meus a vida tem sido uma experiência muito trabalhada, mas também para mantê-los sob controle pergunte-me se eles são tão rígidos e teça aqui com você as perguntas que me incomodam mais do que as respostas que encontrei até agora. A cada semana eu sabia que poderia revisitar o que havia dito, revisá-lo e talvez no futuro voltar ao tema de uma maneira diferente, com diferentes perspectivas, com o objetivo de construir um processo de experiência e transformação, porque qual é o uso de querer comunicar o que estou pensando, acho que posso querer me transformar se não estiver aberto a ser afetado também?

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Quantas dificuldades eu encontrei ao longo do caminho… por exemplo quando eu disse “Meu filho é trans. E agora?”, uma das colunas mais difíceis para mim até agora. Ainda não consegui reconstruir uma relação saudável com meus próprios pais e para saber mais escrevi para eles também, buscando aquela via de diálogo e se ainda não consegui, como poderia com outros pais e outras mães? Hoje é um grande momento, talvez também influenciado por essa encruzilhada, mas o fato é que no ano em que escrevo esta coluna, muito de mim – a coluna vertebral – mudou.

É tão lindo e ao mesmo tempo assustador ver esse caminho. Legal pelo fruto, pelo crescimento que vejo em mim e pelo feedback que recebo de vocês que me lêem. Assustador porque só eu sei onde acabo sentado atrás do computador toda semana pensando em você, em mim e tendo essa conversa quase sempre unilateral. Às vezes há alguns comentários de ódio, às vezes falta o interesse em entender o que essa travesti está falando, mas também muitos frutos que nascem daqui. Frutos na ideia, na compreensão, no pensar em si e no mundo. E mesmo para aqueles que insistem em destilar o ódio, eu os vejo me lendo de novo e de novo, e eu exorto: Continue mesmo! Talvez em algum momento algumas dessas palavras entrem em sua vida com um pouco de poesia, beleza ou vitalidade.

Se escrevo, é porque estou vivo, e se continuo me propondo, porque quero que fiquemos aqui cada vez mais, de pé, atentos e abertos às mudanças do mundo ao nosso redor. Não é fácil encontrar opiniões diferentes das nossas – ou do que aprendemos ser nossas – mas que prática saudável é. Você me soletra e eu revelo, você revela e eu explico, eu explico e você penetra. E nesta simbiose, à distância e através do ecrã do computador ou do telemóvel, vamos nos conhecendo um pouco melhor, seja você eu, eu sou você ou estamos todos no mundo.

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Às vezes não flui com facilidade, às vezes fica preso, às vezes vem em uma enchente, mas quem disse que seria fácil? De qualquer forma, agradeço a quem continua me acompanhando e a quem chega todos os dias, porque você é o motor que mantém essa autora atenta e relacionada ao seu conteúdo, para não dar nada raso, para não ser frívolo, para não deixar me vazio de propósito em cada momento que vivo.

Ser lido significa estar constantemente exposto a você. Cada palavra escolhida por mim e transformada por suas percepções é um labirinto. Mas não seria esse o grande desafio das relações humanas? É praticamente impossível entender todos os detalhes, pois a experiência de cada interlocutor é única e diferente, mas ainda tenho a determinação de ser fiel às minhas palavras e minhas intenções de criar o mínimo de fumaça possível entre nós, para que minha voz claro possível, mesmo tentando falar em meio ao caos da rotina, da cidade, da sobrecarga de informação que a internet nos dá.

Talvez meus objetivos sejam utópicos, mas se não fossem, eu nem estaria escrevendo. Seriam apenas palavras superficiais e mecânicas em busca de um salário que me agrade. E não é disso que estou falando – não só. Quando eu sonho eu quero que você sonhe também, quando eu sangro eu quero que você veja e quando eu penso eu quero que você pense em cada detalhe em seus cantos para que essa prática não seja meio mecânica, mas também sua caminhada.

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