Nua, ‘La’ Brea perguntou: ‘O que você quer de mim?’ | Joaquim Ferreira dos Santos

Sandra Brea

Ela estava nua, deitada de bruços, a mulher mais bonita do Brasil, e com seus olhos nada infantis, acho que até apertando os olhos maliciosamente, ela me mandou baixinho:

“O que você quer de mim?”.

Uma das minhas histórias cariocas favoritas dos anos 70 é a do cara que passa a noite escaneando uma mulher na mesa ao lado do boêmio intelectual bar de folclore Antonio’s no Leblon. Quando ela finalmente desiste do assédio visual e faz a mesma pergunta que Sandra Bréa me faz, o cara responde com a voz mais terna que seu vilão machista foi capaz:

“O que eu quero? Eu quero te dar um lar.”

Qualquer homem poderia dar a Sandra Bréa qualquer coisa que ela pedisse em meados dos anos 1970, a morena mais eloquente das novelas. De bom grado teria dado a ela o que ela quisesse, uma mulher corajosa para a cara séria dos tempos, mas não era a oportunidade de conhecer. Eu só queria respostas honestas dela. Não era conversa fiada tarde da noite em um bar do Leblon. Foi uma entrevista.

Juntei informações para um livro sobre a TV Globo que acabou sendo publicado em 1976 em colaboração com Guilherme Cunha Pinto e Hamilton Almeida Filho. Ele havia chegado aqui depois de muito insistir, pois ‘La’ Bréa carregava agendas lotadas de celebridades. Ele concordou em falar poucos minutos antes do show “Bananas e Paetês”, que acontecia na boate Vivará, no Leblon.

Na hora marcada, entrei no camarim e lá, ao vivo, nua, de bruços em uma maca, estava uma das capas mais bonitas da Playboy. Era o mesmo corpo lustroso da revista, mas agora com os pontos de estresse sentidos pelo shiatsu relaxante de um terapeuta japonês.

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Um bom repórter deve se maravilhar com os acontecimentos para sempre, sempre se maravilhando com a imprevisibilidade das surpresas. No entanto, ele apenas exclamará esses sentimentos por escrito nas páginas do jornal. Mas, sobretudo, segundo o guia editorial, exige-se a moderação da boa ética profissional – demonstrar frieza técnica, sobreposta ao que está acontecendo com o desprezo altivo de um conhecedor.

Então me sentei disfarçado de sorveteiro ao pé da maca e perguntei a “La” Bréa sobre a vida cotidiana e o glamour de uma estrela mundial. Eu falhei. Uma boa entrevista caracteriza-se pela esperteza do jogo de perguntas e respostas, mas também pela capacidade do repórter de apimentar o texto posteriormente, nas pausas entre as aspas de abertura e fechamento, com detalhes de bom gosto da cena e do perfil do entrevistado. Nem um nem o outro aconteceu.

A atriz estava cansada, quase meia-noite, e teve que ficar no palco por mais uma hora. O jovem repórter, por outro lado, havia congelado demais nos cuidados profissionais. Parecia preocupado que 50 anos depois o movimento #metoo encontrasse alguns desvios na implementação da agenda, um abuso na direção visual da entrevista – e lutou com a ênfase jornalística em manter os olhos apenas em “La”. . Os olhos de Brea. Deus e o massagista japonês são testemunhas de que em um momento ele se desviou dessa linha de visão. Na ocasião, a atriz reclamou que uma placa de metal no maiô do show havia rasgado seu cóccix e colocado a mão nessa área dolorida – mas aí seria deselegante para a repórter, antipática e sem empatia não acompanhar seu movimento com os olhos .

Sandra Bréa, que morreu em 2000, completaria 70 anos no dia 11 de maio. Ninguém se lembrava. Eu não esqueço.

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