O menino que foi trocado por uma égua e se transformou no cachorro

Leia isso tagarela, no início da década de 1970, foi um ato de rebeldia dos meninos de Buarque de Macedo e arredores. Eu, Fred, Mário Agra, Marcos Calheiros e outros morávamos lá nas praças e gramados (um exagero), praticávamos o esporte bretão e outras brincadeiras nem sempre reveladas ao público de hoje – que fiquem lá no passado.

Se não fôssemos militantes, ainda seríamos – e não éramos –Amigos ficam presos / Amigos desaparecem assim” (não chore mais, com Gilberto Gil), que repetidamente nos alertou sobre os feitos e os perigos da ditadura. O tagarela fazia parte da nossa subversão. E para nós, combater o bom combate com humor, com irreverência, ainda que com crueldade, é algo que faz muita falta nos dias de hoje. Pelo que vejo, quase todos eles são muito pequenos.

Esse grupo, que criou e inventou para dizer a verdade, criou nomes definitivos para si na imprensa brasileira, com evidente destaque para Millôr, Henfil, Jaguar, Sérgio Cabral (o pai), Tarso de Castro, Paulo Francis, Ziraldo, Ivan Lessa e outros poucos mais tantos – que se perderam no tempo mas cumpriram seu papel em nossa história do papel impresso.

Isso nos traz o jornalista Márcio Pinheiro Newsroom Mouse – Sig and the Tale of the Quibblera biografia do semanário que conquistou gerações de brasileiros em busca da liberdade e do riso aberto (Sig, de Sigmund Freud, foi o ratinho criado pela Jaguar e que se tornou presença garantida nas páginas do jornal).

E como o humor sempre tem sua iconoclastia, nem mesmo os colaboradores foram poupados. Gente do tamanho de Chico Buarque, Caetano Veloso, Leila Diniz, todos altos e receptivos à turma negra. O poeta Vinicius de Morais foi um dos primeiros a ceder um pouco de seu precioso talento escrevendo para o semanário. Se não fosse por isso: Seus novos colegas na implementação disseram em voz alta que o autor do eu sei que Eu vou te amar, após retornar ao Brasil após ser indiciado pelo golpe militar – era diplomata de carreira – chegou. A versão: Ao tomar conhecimento do boato de que o Departamento de Estado estava punindo funcionários envolvidos em “corrupção, pederastia e alcoolismo”, Vinicius gritou às pressas: “Eu sou o bêbado!” ao chegar ao aeroporto! (Calma pessoal: os tempos eram outros).

See also  Onde assistir ao vivo? Que horas começa? Saiba tudo sobre a partida válida pela Série B

Às entrevistas inesquecíveis de tagarela – sempre feito em quadrilha – é o de Madame Satã, personagem mítica carioca. Foi publicado na edição #95 em 29 de abril de 1971 e está disponível no Volume 1 de Antologia do Pasquim, o que traz o slogan: “O Pasquim não tem cobertura, porque quem tem cobertura escapa”.

Entre o surpreendente e o pungente, o malandro, homossexual declarado e conhecido, contou humildemente suas façanhas: Depois de passar 27 anos e oito meses na prisão, decidiu continuar na Ilha Grande – um presídio histórico no Rio de Janeiro – a vida impediu que se tornasse uma lenda nos bairros boêmios da “cidade maravilhosa”. Madame Satã, conhecido por sua bravura e capaz de derrotar sozinho uma guarnição policial, não se gabava de suas façanhas: sabia que era temido, mas não usava o medo que despertava a seu favor.

Por exemplo, na longa entrevista ele negou ter matado o compositor muito mais jovem Geraldo Pereira – Bola de Papel Escuro Pedro pedregulho e continua – sem fugir ao fato: provocado pelo sambista, disse ter sido insultado com “insultos, palavras obscenas e eu nem sei dizer”.

Imediatamente após:

– Aí eu perdi a paciência, bati nele e ele caiu de cabeça no meio-fio. É morreu. No entanto, ele morreu por negligência do médico, pois veio socorrê-lo vivo.

De forma simples, o negrinho pequeno e magro, com um vocabulário marginal aprendido nas ruas e becos do país, relatou que nasceu em 1900 no interior de Pernambuco. Batizado João Francisco dos Santos, sua mãe o trocou ainda criança por uma égua (!!). Depois de crescer cheio de fome e miséria, foi parar na Lapa, bairro boêmio do Rio de Janeiro, onde chegou à fama sem fortuna.

See also  A vacina em spray nasal é a 'solução' para acabar com a pandemia de Covid-19? especialistas respondem

Ele morreu de câncer em abril de 1976, aos 76 anos.

“O samurai da Lapa morreu”, observou Jaguar (que se tornou seu amigo), concluindo:

– Depois da missa fico bêbado na capela em homenagem a um dos poucos homens de caráter que conheço.

Quem de nós pobres merece o castigo do jornalista/comediante?

Leave a Comment

x