PF prende Milton Ribeiro e pastores por ‘escritório paralelo’ no MEC

A Polícia Federal (PF) prendeu o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro na manhã desta quarta-feira, 22, como parte de uma investigação sobre o “gabinete paralelo” instalado na pasta que favorece pastores na distribuição de verbas – caso descoberto pelo Estadão. O mandado de prisão preventiva foi expedido por despacho do juiz Renato Borelli da 15ª Vara Criminal do Distrito Federal e elenca supostos crimes de corrupção passiva, improbidade administrativa e tráfico de influência.

A juíza determinou que Ribeiro, que está hospedado em Santos (SP), seja levado à Delegacia da Polícia Federal em Brasília. A audiência de custódia do aliado do presidente Jair Bolsonaro (PL) – que chegou a afirmar que pegou fogo pelo então ministro – está marcada para esta quinta-feira, 23 de abril.

A operação, que investiga a prática de influência e corrupção para liberação de verbas públicas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), foi batizada de “Acesso Pago”, fez um total de cinco prisões solicitadas pela PF à Justiça. Além de Ribeiro, também foram presos os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, que estão no centro da suposta trama.

Também são alvos da investigação o advogado Luciano Musse, que foi infiltrado por pastores do MEC, e o ex-vereador da cidade de Goiânia, Helder Diego da Silva Bartolomeu – ambos estão em prisão domiciliar. Musse, que foi nomeado gerente de projetos pelo próprio ministro em abril do ano passado, atuou como apoio aos religiosos. Helder Bartolomeu também foi associado aos párocos.

Agentes envolvidos na ofensiva estão fazendo buscas em 13 endereços em Goiás, São Paulo, Pará e Distrito Federal. Entre os alvos das buscas estão o próprio Milton Ribeiro e os pastores Arilton Moura e Gilmar Santos. O julgamento da 15ª Vara Criminal Federal do Distrito Federal também concedeu a proibição cautelar de contato entre investigadores e envolvidos.

A investigação foi iniciada a pedido do Procurador-Geral da República, Augusto Aras, e por ordem do Tribunal de Justiça Federal devido à competência privilegiada de Milton Ribeiro, então Ministro da Educação. Após a saída do aliado do presidente Jair Bolsonaro do governo em meio ao escândalo, a ministra Carmen Lúcia encaminhou a investigação para a primeira instância.

A Polícia Federal informou que com base em documentos, depoimentos de testemunhas e relatório preliminar de investigação do Supremo Tribunal de Contas da União “foram identificados possíveis indícios de práticas criminosas para liberação de verbas públicas”.

Os documentos enviados à empresa pela CGU incluem “relatórios produzidos” e “provas coletadas” durante uma investigação preliminar lançada em agosto sobre o papel dos pastores como cobradores de propina em troca da liberação de fundos do MEC.

Em nota, o Ministério da Educação disse que “recebeu” uma equipe da PF nesta quarta-feira, 22, e “vai continuar trabalhando com todos os órgãos de investigação envolvendo a ex-direção do ministério”.

Bolsonaro diz que tem “motivo” para prisão

Bolsonaro e Milton Ribeiro em evento: Em março deste ano, o presidente defendeu as ações do ministro da Educação na época

O presidente Jair Bolsonaro (PL) disse nesta quarta-feira (22) que a Polícia Federal teve “motivos” para prender o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro como parte da investigação do “gabinete paralelo” montado na pasta. “Deixe-o responder por suas ações”, disse ele. “Se a PF o prendeu, há uma razão”, disse ele, alegando que o caso mostra que “não há interferência do Estado na PF”.

Quando o esquema do MEC do Estadão foi descoberto em março, o CEO Milton Ribeiro se defendeu, dizendo que “colocou fogo na cara” por ele. “Milton, uma coisa rara de se falar aqui: eu coloquei fogo no meu rosto por Milton”, disse ele em uma transmissão ao vivo. O presidente ainda repetiu: “Meu rosto inteiro está pegando fogo por Milton. Eles são covardes contra ele.” Bolsonaro e a primeira-dama Michelle eram muito próximos de Ribeiro.

Nesta quarta-feira, o presidente mudou seu discurso. “Se algo estiver errado, ele reagirá. Se você é inocente, não tem problema; se ele deve, ele vai pagar. O governo está cooperando com a investigação. Não toleramos nada disso”, disse Bolsonaro em entrevista à Rádio Itatiaia (MG). “Bem, eu não sei quão profunda é esta investigação. Na minha opinião não é tão orgânico, porque temos a conformidade nos ministérios. Sem contrato, sem acordo”, disse. E voltou a dizer que “não houve casos de corrupção” em seu governo.

Inimigos e aliados reagem

A prisão do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro se tornou um dos temas mais comentados nas redes sociais desde a madrugada desta quarta-feira, 22. Entre os principais candidatos ao Planalto, Ciro Gomes (PDT) e André Janones (Avante) responderam com ironia no discurso de Bolsonaro em março sobre ‘incendiar a cara’ de Milton. Simone Tebet (MDB) criticou o “desmantelamento da educação” e explicou que “a corrupção também se tornou uma marca deste governo”.

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Só no final da tarde o primeiro colocado nas pesquisas para a presidência, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), comentou a prisão. Canais do PT na internet e a líder nacional do partido, Gleisi Hoffmann, compartilharam charges e expressões de indignação contra o governo Bolsonaro. O pré-candidato à sigla do governo de São Paulo e ex-ministro da Educação Fernando Haddad lamentou “o que aconteceu com o MEC”.

Do lado dos apoiadores da reeleição de Bolsonaro, foi generalizado o discurso sobre autonomia da Polícia Federal e “provas” de que o governo enfrentava corrupção, que o presidente citou em seu comentário sobre o caso logo após a exposição da operação da PF. O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o ex-presidente da Fundação Palmares Sérgio Camargo (PL) reforçaram o raciocínio em publicações nas redes.

Pelo menos dez grupos bolsonaristas, onde os usuários compartilharam repetidamente o vídeo da entrevista que Bolsonaro concedeu à Rádio Itatiaia (MG) nesta manhã, também repetiram a afirmação do presidente de que Milton Ribeiro “vai pagar” se falar na frente do MEC “fez algo errado” “. Esses grupos têm quase 100.000 usuários e representam apenas uma fração do volume de apoiadores de Bolsonaro usando a plataforma de mensagens.

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