Quem são os pastores presos durante uma operação da Polícia Federal e o ex-pastor? – 22/06/2022

Os três alvos estão ligados a igrejas evangélicas e são suspeitos de estarem envolvidos em um “escritório paralelo” no Ministério da Educação (MEC). A ação analisa a prática de “tráfico de influência e corrupção para liberar recursos públicos”.

O ex-ministro da Educação Milton Ribeiro e os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura são os três principais alvos da operação de acesso pago da Polícia Federal (PF) na manhã desta quarta-feira (22).

Eles são suspeitos de administrar um “balcão de loja” no Ministério da Educação (MEC) e liberar recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

O FNDE é um órgão filiado ao MEC controlado por políticos do chamado “centrão”, bloco político que apoia o presidente Jair Bolsonaro (PL). Esse fundo agrega recursos federais destinados a repasses aos municípios.

Denúncias de corrupção vieram à tona em março, após reportagens publicadas nos jornais Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Todas as pessoas identificadas negam qualquer envolvimento em qualquer irregularidade.

Saiba abaixo quem foram os pastores e o ex-pastor presos.

Milton Ribeiro

Ribeiro foi o ministro da Educação mais antigo do governo Bolsonaro: chefiou o departamento entre julho de 2020 e março de 2022.

O ex-ministro, teólogo e advogado é pastor da Igreja Presbiteriana e também ocupou o cargo de vice-reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.

Ribeiro, que continua ligado à universidade, foi apoiado por organizações evangélicas em sua nomeação para o Ministério da Educação.

Ribeiro não é apenas teólogo e pastor especializado no Antigo Testamento da Bíblia, mas também diretor da instituição Luz para o Caminho, que, segundo seu currículo Lattes, cuida da relação entre a Igreja Presbiteriana no Brasil e o meios de comunicação.

Segundo reportagem publicada pela Folha de S. Paulo em março de 2022, Ribeiro “ingressou no MEC em um cenário crítico em meio ao fechamento de escolas devido à pandemia de Covid-19, sem nem saber o tamanho da carteira quando assumiu o cargo”.

“Ao longo do tempo, Ribeiro se aproximou de políticos de grande porte e intensificou o discurso ideológico, marca do bolsonarismo na educação”, analisa o texto.

Em junho de 2021, o então secretário de Educação disse que pretendia analisar pessoalmente as questões do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para criar uma espécie de “filtro ideológico”. Alguns dias depois, ele retirou a decisão.

Ribeiro renunciou ao cargo de ministro em 28 de março deste ano em meio a reclamações sobre um suposto esquema informal de arrecadação de fundos envolvendo os dois pastores sem cargos públicos.

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Como mencionado anteriormente, o caso veio à tona após reportagens dos jornais Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

A Folha, por exemplo, divulgou áudios em que o próprio ministro afirma que sua prioridade com o MEC são as prefeituras que mais precisam, e depois “todos os amigos do pastor Gilmar”.

Ele conta aos prefeitos e religiosos que compareceram à ligação que a prioridade foi definida por um pedido direto de Bolsonaro.

“Foi um pedido especial que o Presidente da República me dirigiu sobre a questão da [pastor] Gilmar”, disse. O ministro acrescentou que o pedido de apoio não é segredo e que visa a construção de igrejas.

Dias após a divulgação dos relatórios, Ribeiro renunciou ao MEC. Na carta exigindo a demissão do cargo, que foi entregue a Jair Bolsonaro, ele negou quaisquer irregularidades.

“Acredito firmemente que nunca realizei uma única ação de gestão em minha carteira que não fosse pautada pela correção, probidade e comprometimento com a Tesouraria. Qualquer suspeita de que uma pessoa próxima a mim possa estar cometendo atos ilegais deve ser minuciosamente investigada”, escreveu o ministro no documento.

Em sua renúncia, o ministro também enfatizou o objetivo de retirar o suposto escândalo de corrupção do governo federal.

“Decidi pedir ao presidente Bolsonaro que renuncie ao meu cargo para que não haja incerteza sobre meu comportamento e o do governo federal, que transformou este país com um firme compromisso de combater a corrupção”, escreveu Ribeiro.

“Minha saída se deve apenas à minha responsabilidade política, que exige mais um sentimento de lar do que qualquer sentimento pessoal”, acrescentou.

Na época, Bolsonaro defendeu o ex-ministro dizendo que “estão fazendo covardia com ele”.

“Milton… Coisa rara de se falar aqui… Eu coloquei fogo no meu rosto por Milton”, disse o então presidente em um webcast ao vivo.

O ex-ministro foi preso pela Polícia Federal (PF) na manhã desta quarta-feira (22) em uma ação chamada “Acesso Pago”.

No mandado de prisão, o juiz Renato Borelli da 15ª Vara Federal de Brasília elenca os crimes sob investigação que o ex-ministro teria cometido: corrupção passiva, improbidade, advocacia e atividades de influência.

Segundo o G1, o advogado Daniel Bialski, um dos representantes de Ribeiro, diz que não há “motivo específico” para a prisão.

“Parece-me que esta prisão preventiva não tem caráter contemporâneo (os fatos são de muito tempo atrás) e não há razão ou razão concreta para esta prisão precoce”, explicou.

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Questionado por jornalistas sobre a prisão, Bolsonaro mudou de tom em relação ao ex-ministro. “Deixe-o responder por suas ações.”

Segundo o presidente, o ex-ministro “tinha conversas muito informais com pessoas em quem confiava”, o que, segundo ele, pode tê-lo prejudicado.

Bolsonaro acrescentou que a operação da PF era um sinal de que a empresa operava sem interferência política de seu governo.

“Se a PF o prendeu, há um motivo”, disse.

Gilmar Santos

Nas redes sociais, onde conta com mais de 159 mil seguidores, Gilmar Santos se apresenta como presidente do ministério Cristo para Todos em Goiânia e diz que prega o Evangelho há 40 anos.

Também é Presidente da Convenção Nacional da Igreja e Ministro das Assembleias de Deus no Brasil e Diretor da ITCT Teologia, “instituição teológica com tradição na formação de líderes para o ministério do reino de Deus”.

Natural de São Luís do Maranhão, o pastor tem 61 anos e é casado com a pastora Raimundinha há quase quatro décadas.

Blogs ligados a igrejas evangélicas relatam que Santos “já ministrou [conferências] nos 26 estados e no Distrito Federal” e em várias partes do mundo.

“Ao longo dos anos, vimos centenas e inúmeras conversões [à religião]. Já houve noites, como São Luís do Maranhão, onde foram verificadas mais de 800 conversões em uma única noite de cruzada”, diz o texto.

Santos foi fotografado ao lado de Bolsonaro e outros líderes políticos em serviços públicos e orações.

Uma reportagem do portal Metrópoles aponta que ele tem “passeio gratuito na capital federal” e “no ambiente político”.

Após as denúncias no MEC, que vieram à tona em março, o pastor postou um vídeo nas redes sociais dizendo que tinha “aversão a mentir”.

“Sempre preguei a santidade de Deus, a justiça de Deus, minha aversão ao erro, pecado e mentiras. Eu criei meus filhos. Minha esposa e eu dissemos para não mentir, mesmo por diversão”, disse Santos.

Arilton Moura

Arilton Moura, mais reservado nas redes sociais, é outro alvo chave da operação em curso da PF.

Segundo reportagens do jornal O Estado de S. Paulo, Moura é o “braço direito” do Pastor Gilmar Santos e assessor político da Convenção Nacional da Igreja e Ministro da Assembleia de Deus no Brasil.

A dupla se aproximou do governo Bolsonaro antes mesmo de Milton Ribeiro assumir o MEC. O Estadão observou que o deputado federal João Campos (Republicano-GO) foi quem lhes abriu as portas do governo, que também é pastor da Congregação de Adoração de Vila Nova.

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Antes do atual governo, Moura foi Secretário Extraordinário de Integração das Ações Comunitárias do governo Simão Jatene (PSDB) no Pará.

O pastor também foi líder nacional do antigo Partido Humanista Solidário (PHS), hoje Podemos, no mesmo estado.

Uma série de relatórios divulgados pelo Estadão em março revelou que Moura teria pedido propina para permitir que o MEC atendesse às demandas da prefeitura de Luís Domingues, município do Maranhão.

Na matéria, o prefeito Gilberto Braga (PSBD) informou que o pastor pediu R$ 15 mil e um quilo de ouro.

Em abril, Moura chegou a ser intimado pelo Senado Federal para explicar as acusações, mas se recusou a comparecer à sessão.

Uma pesquisa realizada pelo jornal O Globo mostrou que ele visitou a Câmara dos Deputados pelo menos 90 vezes entre janeiro de 2019 e março de 2022.

A operação

As provas criminais foram coletadas a partir de documentos, depoimentos de testemunhas e relatório da Controladoria-Geral da União (CGU) na liberação de recursos do FNDE.

Ao todo, 13 mandados de busca e apreensão e cinco mandados de prisão estão sendo cumpridos em Goiás, São Paulo, Pará e Distrito Federal.

Acredita-se que os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura sejam figuras-chave na trama criminosa descoberta no ministério, então sob o comando de Ribeiro.

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, eles negociaram com os prefeitos a liberação de verbas federais mesmo sem ocupar cargos públicos.

Esses recursos vieram do FNDE, órgão vinculado ao MEC e controlado pelo Centrão.

Contrariando suas promessas eleitorais, o presidente Jair Bolsonaro recorreu a esses parlamentares em busca de ajuda diante de uma série de pedidos de impeachment.

A contraprestação geralmente é feita por meio de troca de posições e transferências de recursos federais.

Demandas de propinas, mesmo em ouro, foram relatadas por prefeitos.

Desde janeiro de 2021, no máximo, os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura negociam a liberação de compromissos para trabalhos em creches, escolas, quadras ou para compra de equipamentos. Os recursos são administrados pelo FNDE.

Eles tiveram trânsito livre no governo, organizaram viagens do ministro com lideranças do FNDE e marcaram reuniões com prefeitos na própria residência de Ribeiro, mostra a pesquisa.


Este texto foi publicado originalmente https://www.bbc.com/portuguese/brasil-61903686

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