Relembre o discurso de Gilberto Gil quando se tornou o 2º Negro Imortal da Academia Brasileira de Letras: “Temos que resistir sempre”

Inteligente, paciente e confiante na missão que estava prestes a assumir. O dia 8 de abril de 2022, data em que Gilberto Passos Gil Moreira, o baiano Gilberto Gil, ocupou a 20ª cadeira da Academia Brasileira de Letras (ABL), já entrou para a história do país. A cerimônia no Rio de Janeiro foi cheia de beleza e reconhecimento.

Ser imortal aos quase 80 anos e sobretudo tornar-se o primeiro expoente da música popular no Brasil e o segundo negro na atual composição dos Imortais da ABL traz esperança e revela uma potência que já foi sentida pelo artista em diferentes momentos durante toda a sua carreira. Desde cedo, Gil mostrou interesse pela música e pelas questões sociais. E a participação na ABL reflete esse envolvimento ativo.

o dia da inauguração

O evento contou com uma enorme lista de convidados e toda a cerimônia foi transmitida ao vivo nas redes sociais da ABL. Todos estavam atentos às palavras do novo acadêmico. Gilberto Gil foi conduzido ao Salão Nobre do Petit Trianon por Antônio Cícero, Nélida Piñon e Rosika Darcy e Oliveira; e, em seguida, recebido pelo acadêmico Antônio Carlos Secchin.

Por volta das 21h30, o púlpito foi tomado e o discurso foi dirigido ao início do discurso “Sr. Presidente da Academia Brasileira de Estudiosos, Acadêmico Merval Pereira”, a “Sra. Secretária Geral da Academia Brasileira de Estudiosos, Acadêmica Nélida Piñon”, a “Sra. e Senhores Acadêmicos”, aos “Amigos aqui presentes” e para “meus filhos, meus netos… e Flora”.

Somente após o discurso de aproximadamente 40 minutos foram entregues o colar, a espada e o certificado – que sela oficialmente a posse. O colar foi dado à atriz Fernanda Montenegro, a espada ao escritor Arnaldo Niskier e por fim o diploma ao cineasta Cacá Diegues. O poeta e ensaísta Antônio Carlos Secchin falou por pouco mais de 45 minutos e também homenageou Flora, esposa e empresária de Gil.

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Ao final do evento oficial, ocorreu uma solene cerimônia com drinks e iguarias típicas da culinária baiana. A família de Gil esteve presente e o artista recebeu elogios de mais de 200 pessoas, segundo a ABL.

O discurso

De fato, passaram-se 54 anos até que Gil vestisse seu próprio uniforme nesta honrosa missão. Isso porque antes, em 1968, ele usou o manto alugado para tirar uma fotografia do álbum de mesmo nome, lançado no auge da Tropicália. Nessa altura, e conforme descrito no discurso, escreveu um poema em que criticava a Academia, mas o multi-instrumentista e escritor pouco falou do que o destino lhe reservava.

já nas primeiras palavras palavras de falao músico destacou aqueles que ocuparam sua cadeira no passado, mas também trouxe clareza aos fatos e, claro, críticas a comportamentos vivenciados e testemunhados por muitos brasileiros nos cenários social, cultural e político.

Poucas vezes em nossa história republicana o escritor, o artista, o produtor cultural foram tão perseguidos e desprezados como agora. Há uma guerra em favor do irracional e dos conflitos ideológicos nas redes sociais da internet, e o assunto merece a atenção de nossos educadores e homens públicos. A ABL tem muito a contribuir para esse debate civilizador. E quero entrar aqui no debate a favor da cultura e da justiça.

disse Gilberto Gil

O discurso confiante foi aplaudido por todos os convidados. Do patrono da cátedra – o médico e jornalista Joaquim Manuel de Macedo – ao mais recente antecessor – o jornalista Murilo Melo Filho – Gil fez uma análise detalhada, destacando as experiências e momentos que os titulares da vaga deixaram como legado.

A sutileza das palavras em cada momento histórico levou à viagem do cantor, que viveu no interior da Bahia desde sua infância até sua chegada a Salvador. As críticas e posições peculiares ao músico também foram apresentadas por ele, ainda que com um toque, já que a cerimônia oferecia a oportunidade. Gilberto Gil compartilhou humildemente questões brasileiras atuais que ainda não têm respostas.

“Nasci em Salvador e passei minha infância no interior de Ituaçu. Eu olho para o menino que eu era daquela arquibancada e fico maravilhado. A curiosidade e algumas perguntas da época continuam vivas em mim…. O que será do Brasil em meio a esse mundo de pandemias e guerras? Que destino aguarda a Amazônia? O que os políticos estão fazendo para acabar com a fome e o analfabetismo? Quando poderemos alcançar a tão esperada independência científica e tecnológica? Por quanto tempo o Brasil continuará sendo o “país do futuro” de Stefan Zweig? Não tenho respostas nem verdades estabelecidas, nem sei se algum dia terei.

marcou Gil

Na última parte seu filho Pedro Gil – in memoriam – e toda a família foram lembrados. Mas como bom baiano, deixou sua marca ao ‘estrear’ na academia, terminando com música e claro esperando dias ‘mais claros’. Principalmente porque, como disse Gil em sua fala: Você tem que resistir, sempre’.

“Apesar dos tempos politicamente sombrios em que vivemos, minha aposta é a esperança, contra a escuridão física e moral, de que quando chegarmos ao luar cheio, haverá pelo menos a chama de uma vela. Lembre-me: “Quando a noite inventa a escuridão, a luz inventa o luar, o olho da vida inventa visões, doce luz sobre o mar…” Esta é a nossa aposta na vida e na alegria.…A quem me tem ouvido aqui e a quem tem acompanhado esta cerimónia pela internet, um abraço e obrigado!

Feito Gil.

O opcional

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Escolhido em 11 de novembro de 2021 – com 21 votos a favor e 7 contra – o cantor e compositor baiano assumiu a presidência número 20 da ABL, que pertencia ao jornalista Murilo Melo Filho, falecido em 27 de maio de 2020. O antecessor foi advogado, escritor e um dos grandes jornalistas brasileiros da segunda metade do século XX.

Os outros dois candidatos à imortalidade foram o poeta Salgado Maranhão e o escritor Ricardo Daunt. Acadêmicos participaram da votação presencial e/ou virtualmente, um dos quais não votou por motivos de saúde.

Os anteriores titulares da Cátedra 20 foram Joaquim Manuel de Macedo (padroeiro), Salvador de Mendonça (fundador), Emílio de Meneses, Humberto de Campos, Múcio Leão e Aurélio de Lyra Tavares. Na ocasião, o presidente da ABL, Marco Lucchesi, lembrou uma oportuna metáfora do sociólogo, escritor e político brasileiro Darcy Ribeiro para se referir ao novo imortal da instituição.

“Para Darcy, o pássaro cultivado tinha duas asas. Um deles era erudito e o outro popular. Para que o pássaro continue voando, ele precisa das duas asas. Certamente Gilberto Gil é esse traço da união da cultura erudita e popular”.

disse Lucchesi

Assista a cerimônia completa abaixo.

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